terça-feira, 23 de setembro de 2014
O Cão dos Baskervilles Capítulo Terceiro
09:13
1 comment
Capítulo terceiro: O problema
Confesso que, ao ouvir aquelas palavras, um calafrio me percorreu o corpo. Havia uma vibração na voz do médico que indicava que ele estava profundamente emocionado com o que nos contara. Holmes inclinou-se para a frente, excitado. Os seus olhos tinham o brilho duro e seco que neles surgia quando estava profundamente interessado.
— O senhor viu isso?
— Tão claramente como o vejo agora.
— E não disse nada?
— Que adiantava?
— Como é que ninguém mais notou?
— As marcas estavam a vinte pés do corpo e ninguém lhes deu atenção. Não creio que eu também tivesse ligado ao fato, se não conhecesse a lenda.
— Há muitos cães pastores na charneca?
— Sem dúvida, mas aquele não era um cão pastor.
— O senhor disse que era muito grande? Enorme.
— Mas não se aproximou do corpo?
— Não.
— Como estava a noite?
— Úmida e fria.
— Mas não chovia?
— Não.
— Como é essa alameda?
— Há duas fileiras de velhos teixos que formam urna sebe de quatro metros de altura, alta e impenetrável. O caminho, ao centro, tem quase três metros de largura.
— Há alguma coisa entre as shes e o caminho?
— Sim, há, de cada lado, uma faixa de relva de mais ou menos dois metros de largura.
— Pelo que ouvi, há um portão nessa sebe?
— Sim, um portão de vime, que dá para o campo.
— Há outra entrada?
— Não, não há.
— De modo que quem quiser entrar na Alameda de Teixos tem de vir da casa ou passar pelo portão?
— Há uma saída pela estufa, no fim da alameda.
— Sir Charles chegara até lá?
— Não; estava ainda a cinquenta metros dali.
— Diga-me agora, dr. Mortimer (e isto é importante): as marcas estavam na areia ou na relva?
— Nenhuma marca era visível na relva.
— As marcas estavam no mesmo lado do portão que dá para o campo?
— Sim, estavam.
— Isso me interessa muito. Outra coisa: o portão estava fechado?
— Fechado com cadeado.
— Que altura tem?
— Mais ou menos um metro e trinta.
— Então, qualquer pessoa poderia pular por cima dele.
— Poderia.
— E que marcas viu perto do portão?
— Nenhuma marca especial.
— Deus do céu! Ninguém examinou?
— Sim, eu próprio examinei.
— E não encontrou nada?
— Era tudo muito confuso. Evidentemente, Sir Charles estivera ali parado durante cinco ou dez minutos.
— Como sabe disso?
— Porque a cinza do cigarro dele caíra duas vezes no chão.
— Bravo! Aqui ternos um colega, e dos bons, Watson. Mas as marcas?
— Ele deixou marcas na areia, mas não vi outras. Sherlock Holmes bateu com a mão no joelho, Com um gesto impaciente.
— Se ao menos eu tivesse estado lá! — exclamou. — Não há dúvida de que é um caso extraordinário, que apresenta imensas oportunidades ao perito. Aquela página de areia, onde eu poderia ter lido tanta coisa, foi manchada pela chuva e deformada pelos tamancos de camponeses curiosos. Oh, dr. Mortimer, dr. Mortimer, e pensar que não me chamou! O senhor tem realmente contas a prestar.
— Não poderia chamá-lo, Sr. Holmes, sem revelar ao mundo esses fatos, e já lhe expus as razões para a minha mineira de agir. Além disso…
— Por que hesita?
— Existe um reino onde o mais astuto e o mais experiente dos detetives é impotente.
— O senhor quer dizer que se trata de algo de sobrenatural?
— Não disse isso.
— Não disse, mas evidentemente é o que pensa.
— Depois da tragédia, Sr. Holmes, tenho ouvido falar de vários incidentes, que mal podem ser considerados naturais.
— Por exemplo?
— Soube que, antes do acontecimento, várias pessoas viram na charneca uma criatura cuja descrição corresponde à do demônio de Baskerville e que não pode ser nenhum animal conhecido da ciência. Estão todos de acordo em que se trata de um ser enorme, luminoso, assustador e espectral. Interroguei aqueles homens, um aldeão inteligente, um ferreiro e um fazendeiro da charneca, e todos contam a mesma história a respeito da terrível aparição, que corresponde exatamente ao cão fantasma da lenda. Posso lhe garantir que há uma onda de terror no distrito, e que bem corajoso pode ser considerado o homem que atravessar o campo à noite.
— E o senhor, cientista experiente, acredita que seja algo de sobrenatural?
— Não sei o que pensar.
Holmes encolheu os ombros.
— Até hoje, as minhas investigações limitaram-se a este mundo — disse ele. — De maneira modesta, tenho combatido o mal, mas talvez seja ambição excessiva desafiar o pai do mal. Apesar disso, o senhor tem de admitir que a pegada é material.
— O primeiro cão foi suficientemente material para rasgar a garganta de um homem e, ao mesmo tempo, bastante diabólico.
— Vejo que o senhor passou para o campo dos sobre-naturalistas. Mas agora, dr. Mortimer, diga-me uma coisa. Se o senhor tem essas ideias, por que veio consultar-me? Diz que é inútil investigar a morte de Sir Charles, e, ao mesmo tempo, deseja que eu o faça.
— Não disse que desejava que o senhor a investigasse.
— Então, de que maneira lhe posso ser útil?
— Aconselhando-me sobre o que devo fazer com Sir Henry Baskerville, que chega hoje à Estação Waterloo.
— O dr. Mortimer consultou o relógio — exatamente dentro de uma hora e quinze.
— É ele o herdeiro?
— Sim. Após a morte de Sir Charles, procuramos o rapaz e descobrimos que vivia numa fazenda no Canadá. Pelas notícias que nos chegaram, é ótima pessoa. Falo agora não como médico e sim como inventariante de Sir Charles.
— Não há outro pretendente, creio eu.
— Nenhum. O único outro parente de que ouvimos falar é Rodger Baskerville, o mais novo dos três irmãos, sendo Sir Charles o mais velho. O segundo, que morreu jovem, é o pai do atual herdeiro, Henry. O terceiro, Rodger, era a ovelha negra da família. Tinha as características dos antigos Baskervilles e era, pelo que apurei, o retrato do velho Hugo. Como era perigoso para ele continuar na Inglaterra, fugiu para a América Central, onde morreu de febre amarela, em 1876. Henry é o último dos Baskervilles. Dentro de uma hora e cinco minutos, vou encontrá-lo na Estação Waterloo. Recebi um telegrama, avisando que ele chegaria a Southampton hoje de manhã. Agora, sr. Holmes, que me aconselha?
— Por que ele não há de ir para a mansão dos seus antepassados?
— É o que parece lógico, não é? Apesar disso, note que todos os Baskervilles que vão para lá encontram morte trágica. Tenho certeza de que, se Sir Charles tivesse podido falar comigo antes de morrer, teria me prevenido para não levar o último da sua estirpe, e herdeiro de uma grande fortuna, para aquele lugar fatídico. E, no entanto, não se pode negar que a prosperidade daquela pobre região depende da sua presença. A benéfica obra de Sir Charles cairá por terra, se não houver um morador em Baskerville. Receei, no entanto, deixar-me influenciar pelo meu interesse no assunto, e por isso vim pedir-lhe conselho.
Holmes refletiu durante alguns segundos.
— Falando claramente, na sua opinião há um agente diabólico que faz com que Dartmoor seja uma residência insegura para um Baskerville, não é?
— Pelo menos, aventuro-me a dizer que há indícios de que assim seja.
— Exatamente. Mas, se a sua teoria sobrenatural está correta, não há dúvida de que o tal agente poderia causar dano ao rapaz, tanto em Londres como em Devonshire.
— Não se pode conceber um demônio que só tenha poder local.
— O senhor trata do assunto com uma petulância, Sr. Holmes, que certamente não usaria se tivesse tido contato direto com essas coisas. Na sua opinião, ao que me parece, o rapaz estará tão seguro em Devonshire como em Londres. Ele chega dentro de cinquenta minutos. Que me aconselha?
— Aconselho-o a tomar um carro, chamar o seu cão, que está arranhando a minha porta, e dirigir-se para Waterloo, ao encontro de Sir Henry.
— E então?…
— E então não lhe deve dizer nada, até eu ter tomado uma resolução.
— Quanto tempo levará para tomar essa resolução?
— Vinte e quatro horas. Gostaria que amanhã às dez horas o senhor tivesse a gentileza de vir procurar-me aqui, e seria vantajoso para os meus planos futuros que Sir Henry Baskerville o acompanhasse.
— Plenamente de acordo, sr. Holmes.
O dr. Mortimer tomou nota no punho da camisa e saiu apressadamente, com aquele seu jeito estranho, furtivo e distraído. Holmes deteve-o, no alto da escada.
— Mais uma pergunta, dr. Mortimer. O senhor disse que, antes da morte de Sir Charles, várias pessoas viram a aparição na charneca?
— Três pessoas a viram.
— Alguma a viu depois?
— Não, que eu saiba.
— Obrigado. Até amanhã.
Holmes voltou ao seu lugar com aquela expressão calma, de íntima satisfação, de quem tem diante de si tarefa a seu gosto.
— Vai sair, Watson?
— Sim, a não ser que possa lhe ser útil.
— Não, caro amigo, é na hora de agir que preciso do seu auxílio. Mas isso é esplêndido, é único, sob vários aspectos. Quando passar por Bradley’s, quer fazer o favor de pedir que me mandem uma libra do mais forte tabaco que tiverem? Obrigado. Seria preferível que você não voltasse antes da noite. Terei então muito prazer em comparar as nossas impressões sobre o interessantíssimo problema que nos foi apresentado na manhã de hoje.
Eu sabia que o meu amigo necessitava de solidão e sossego, nessas horas de intensa concentração mental em que pesava todos os indícios, construía teorias alternativas, comparava uma com a outra e decidia quais os pontos essenciais e quais os sem importância. Portanto, passei o dia no clube e não voltei à Baker Street a não ser à noite. Eram nove horas quando de novo me vi na sala de Holmes.
A minha primeira impressão, quando entrei, foi de que a casa pegara fogo, pois a sala estava cheia de fumaça que semiocultava o candeeiro que estava sobre a mesa. Verifiquei que os meus receios não tinham fundamento, pois a fumaça era de tabaco forte, que me fez tossir. Através da névoa, distingui vagamente Holmes, de roupão, encolhido numa poltrona, com um cachimbo negro na boca. Vários rolos de papel estavam espalhados à sua volta.
— Constipou-se, Watson?
— Não, é esta atmosfera envenenada que me faz tossir.
— Realmente está pesada; agora que você me chamou atenção é que dei por isso.
— Pesada? Intolerável!
— Pois então abra a janela. Vejo que passou o dia no clube.
— Caro Holmes!
— Acertei?
— Sem dúvida, mas… ?
Ele riu da minha expressão atônita.
— Há em você um delicioso frescor, Watson, que faz com que seja um prazer exercitar, à sua custa, os pequeninos dons que possuo. Um cavalheiro sai de casa num dia chuvoso e nublado. Volta, à noite, com o chapéu e os sapatos ainda reluzentes. Esteve, portanto, dentro de casa todo o dia. Não é homem que tenha amigos íntimos. Onde, então, poderá ter estado? Não é óbvio?
— Sem dúvida, é óbvio.
— O mundo está cheio de coisas óbvias, que ninguém observa. Onde pensa que estive?
— Em casa, também.
— Pelo contrário, estive em Devonshire.
— Em espírito?
— Exatamente. O meu corpo ficou aqui nesta poltrona e, infelizmente, consumiu na minha ausência dois grandes bules de café e urna incrível quantidade de tabaco. Depois que você saiu, mandei buscar o mapa da região onde fica a charneca, e o meu espírito por ali pairou o dia todo. E sem modéstia que afirmo que não me perdi.
— Um mapa grande, suponho.
— Muito grande. — Holmes desenrolou um pedaço do mapa e estendeu-o sobre os joelhos. — Aqui temos o distrito que nos interessa. Baskerville Hail fica no meio.
— Cercada por mato?
— Exatamente. Creio que a Alameda de Teixos, embora aqui não esteja marcada, estende-se nesta linha, coro a charneca à direita, como pode ver. Este grupo dc casas, aqui, é o lugarejo de Grimpen, onde o nosso amigo, dr. Mortimer, reside. Num raio de oito quilômetros há, como pode verificar, apenas algumas casas espalhadas. Aqui está Lafter Hall, que foi mencionada na narrativa. Aqui vemos urna casa que talvez seja a residência do naturalista. Stapleton, creio que é o seu nome. Aqui, duas casas de fazenda, na charneca, High Tor e Foulmire. E, a vinte e dois quilômetros de distância, a grande prisão de Princetown. Entre esses pontos, e à sua volta, estende-se a charneca deserta e sem vida. Aqui, portanto, é o palco onde foi representada a tragédia e onde, com o nosso auxílio, outra poderá ser evitada.
— Deve ser um lugar selvagem.
— Sim, o ambiente é apropriado. Se o Demônio desejasse interferir nos negócios dos homens.
— Então está inclinado a dar uma explicação sobrenatural! — exclamei.
— Os agentes do Diabo podem ser de carne e osso, não podem? Duas perguntas nos esperam, de início. A primeira é: terá sido cometido um crime? A segunda: que crime, e como foi cometido? Claro que, se a suspeita do dr. Mortimer for certa e estivermos lutando com forças fora das leis comuns da natureza, termina aqui a nossa investigação. Mas temos de esgotar todas as outras hipóteses, antes de nos conformarmos com essa. Creio que será melhor fechar de novo aquela janela, se não faz questão. E estranho, mas acho que um ambiente fechado propicia a concentração mental. Não cheguei ao extremo de me encerrar numa caixa para refletir, mas é este o resultado lógico das minhas convicções. Você examinou o caso?
— Sim, pensei muito nele durante o dia.
— Qual a sua opinião? É desnorteante.
— Não há dúvida de que tem as suas particularidades. Há nele pontos distintos. Aquela mudança nas pegadas, por exemplo. Que me diz disso?
— Mortimer disse que o homem tinha andado na ponta dos pés, naquele trecho da alameda.
— Ele apenas repetiu o que um idiota declarou no inquérito. Por que haveria alguém de andar na ponta dos pés, na alameda?
— Então, o que foi?
— Ele fugia, Watson… fugia desesperadamente, corria para salvar a vida, correu até o seu coração estourar e ele cair morto por terra.
— Fugia de quê?
— Aí está o nosso problema. Há indícios de que o homem estava louco de medo, antes mesmo de começar a correr.
— Por que diz isso?
— Suponho que a causa do seu terror tivesse vindo da charneca. Se assim foi, e é o que parece provável, somente um homem que tivesse perdido a cabeça correria em sentido contrário à sua casa e não para ela. Se acreditarmos no depoimento do cigano, ele começou a correr, bradando por socorro, na direção de onde havia menos probabilidades de vir auxílio. Além disso, quem estava ele esperando, naquela noite, e por que esperava essa pessoa na Alameda de Teixos, e não em casa?
— Acha que estava esperando alguém?
— Sir Charles era velho e doente. Podemos compreender que desse um passeiozinho à noite, mas o chão estava úmido e a noite ruim. Acha natural que ele tenha ficado parado durante cinco ou dez minutos, conforme dedução do dr. Mortimer, que mostra assim ter mais senso prático do que eu o julgava capaz?
— Mas ele saía todas as noites.
— Acho pouco plausível que parasse perto do portãozinho todas as noites. Pelo contrário, sabemos que evitava a charneca. Naquela noite, ficou ali, à espera. Era a noite anterior à sua partida para Londres. A coisa começa a tomar forma, Watson, está se tornando coerente. Peço-lhe que me dê o meu violino; adiaremos as meditações sobre o assunto até termos tido ocasião de ver o dr. Mortimer e Sir Henry Baskerville amanhã cedo.
segunda-feira, 22 de setembro de 2014
O livro ganhou um filme!
09:06
0 Comentários
O livro ganhou um filme, com o mesmo nome do livro, mas a história é um pouco modificada, mas mostra sem detalhes a aventura vivida de Sherlok Holmes
O Cão dos Baskervilles Capítulo Segundo
08:55
0 Comentários
Capítulo segundo: A maldição dos Baskervilles
— Trago aqui um manuscrito — disse o dr. James Mortimer.
— Foi o que notei, quando entrou nesta sala — replicou Holmes.
— É um velho manuscrito.
— De princípios do século XVIII, a não ser que se trate de falsificação.
— Por que diz isso?
— O senhor permitiu que eu visse alguns centímetros, durante o tempo em que falou. Pobre do perito que não pudesse determinar a data de um documento, com uma marern de dez anos! Talvez o senhor tenha lido a minha pequena monografia a respeito do assunto. Calculo que o doeumento seja de 1730.
— A data exata é 1742 — disse Mortimer, tirando-o do bolso do casaco. Foi-me confiado por Sir Charles Baskerville, cuja morte trágica, há três meses, causou muita excitação em Devonshire. Posso garantir-lhe que, além de seu médico, eu era seu amigo íntimo. Sir Charles era um homem de força de vontade, Sr. Holmes, esperto, prático e tão pouco imaginativo como eu. Apesar disso tomou este documento muito a sério, e estava preparado para o fim que teve.
Holmes estendeu a mão para pegar o manuscrito e dobou-o sobre os joelhos.
— Observe, Watson, este pormenor aqui… É uma das indicações que me permitiram fixar a data.
Olhei, por cima do seu ombro, para o papel amarelo do velho documento. Ao alto estava escrito: “Baskerville Hall”, e embaixo, cm traços largos, “1742”.
—Parece ser um relatório qualquer.
—Sim, é a narrativa de uma lenda que existiu na família Baskerville.
— Mas creio que deseja me consultar a respeito de algo mais atual e prático, não?
— Mais atual, sim. Assunto muito prático e urgente, que tem de ser resolvido em vinte e quatro horas. Mas o manuscrito é breve e relaciona-se intimamente com o assunto. Vou lê-lo, se me dá licença.
Holmes reclinou-se na cadeira, juntou as pontas dos dedos e fechou os olhos, com ar resignado. O dr. Mortimer virou o documento para a luz e leu, em voz alta e vibrante, a seguinte e curiosa narrativa;
— “Tem havido muitas versões sobre a origem do cão dos Baskervilles, e, no entanto, como descendo em linha reta de Hugo Baskerville, e como ouvi a história contada por meu pai, que antes a ouvira do seu, aqui a relato, na crença de que aconteceu conforme vai ser relatada. E desejaria que acreditásseis, meus filhos, que a mesma Justiça que pune o pecado também pode benignamente perdoá-lo, e que nenhuma excomunhão é suficientemente forte que não possa ser afastada pela prece e pelo arrependimento. Aprendei, portanto, com esta história, a não temer os frutos do passado, mas a ser circunspectos no futuro, para que as vis paixões que afligiram a nossa família não se desencadeiem novamente, para nossa ruína.
“Sabei portanto que, por ocasião da Grande Rebelião (e chamo a vossa atenção para a sua história, escrita pelo ilustre Lorde Clarendon), este domínio de Baskerville pertencia a Hugo desse nome, e não se pode negar que ele tenha sido um homem desenfreado e ímpio. Isso, em verdade, os vizinhos poderiam perdoar-lhe, uma vez que nunca houvera santos naquela região, mas havia nele um humor cruel e dissoluto que tornou célebre o seu nome no oeste. Aconteceu que Hugo começou a amar (se é que tão negra paixão pode ser descrita sob tão doce nome) a filha de um lavrador que possuía terras perto de Baskerville. A donzela, que era discreta e de boa reputação, evitava-o sempre, temendo-lhe a fama. Aconteceu que, no dia de São Miguel, esse mesmo Hugo, com cinco ou seis de seus vadios e perversos companheiros, dirigiu-se à fazenda e raptou a jovem, sabendo que seu pai e seus irmãos estavam ausentes. Quando chegaram à mansão, deixaram a donzela no andar de cima, enquanto Hugo e os amigos passavam a noite em orgia, como era seu hábito. Lá em cima, a pobre jovem quase enlouqueceu com a cantoria e os palavrões que vinham de baixo, pois era sabido que as palavras usadas por Hugo Baskerville, quando embriagado, eram de arrepiar os cabelos. Finalmente, o medo fez com que ela empreendesse aquilo que teria detido o mais bravo dos homens. Com o auxílio da hera que cobria (e ainda cobre) a parede sul, conseguiu descer e dirigir-se, através da charneca, para a casa de seu pai, que ficava a três léguas de distância.
“Aconteceu que, pouco depois, Hugo deixou os amigos para levar comida e bebida — e talvez outras coisas piores — à sua prisioneira, encontrando a gaiola vazia e o pássaro ausente. Parece, então, que ficou como que possuído pelo Diabo, pois correu para o salão de baixo e pulou sobre a mesa, fez voar garrafas e pratos e gritou para os companheiros que daria, naquela mesma noite, a alma às Forças do Mal, se conseguisse apanhar a jovem. Estavam todos estarrecidos com aquela fúria, quando um deles, mais cruel (ou talvez mais bêbado) do que os outros, bradou que deviam soltar os cães atrás dela. Com isso, Hugo saiu de casa correndo, gritando para os criados que lhe selassem a égua e soltassem a matilha. Deu aos cães um lenço da jovem, atiçou-os e com eles saiu desabaladamente pela charneca.
“Durante alguns momentos, os companheiros ficaram atônitos, sem poder compreender o que com tal pressa fora feito. Mas logo deram acordo de si e perceberam o fato horroroso que ia se consumar no campo. A algazarra agora era completa, uns a gritar pelas suas pistolas, outros pelos seus cavalos e alguns por mais uma garrafa de vinho. Finalmente, aqueles loucos recuperaram um pouco de bom senso e, montando a cavalo — eram treze, ao todo —, saíram no encalço do dono da casa. A lua brilhava por cima deles, enquanto cavalgavam a toda a pressa, enveredando pelo caminho que jovem devia ter tomado para regressar à sua casa.
“Tinham andado dois ou três quilômetros quando encontraram um dos pastores noturnos. Gritaram-lhe, perguntando se vira a caçada. O homem, conforme reza a história, estava tão apavorado que mal podia falar, mas finalmente contou que realmente vira a infeliz donzela com os cães no seu encalço. ‘Vi mais do que isso’, prosseguiu. ‘Hugo de Baskerville passou por mim na égua negra, e atrás dele corria, silencioso, um cão do inferno, tal como espero que Deus jamais permita que venha atrás de mim!’
“Os cavaleiros, bêbados, amaldiçoaram o pastor e continuaram. Mas logo sentiram o sangue gelar-se-lhes nas veias, pois ouviram um som de galope pela charneca, e a égua negra, salpicada de espuma, passou por eles com as rédeas soltas e a sela vazia. Os homens cavalgaram então lado a lado, pois estavam possuídos pelo medo; seguiram ainda pelo campo, se bem que cada um deles, se estivesse só, teria virado o cavalo para dali fugir o mais depressa possível. Cavalgando devagar, finalmente encontraram os cães. Embora conhecidos pela sua coragem e raça, agora ganiam numa moitinha no topo de um declive, alguns tentando escapulir e outros fitando, de olhos arregalados, o vale lá embaixo.
“Os cavaleiros tinham parado, e, como bem podeis imaginar, estavam mais lúcidos do que quando haviam partido. A maior parte não queria por nada avançar, mas três deles, os mais ousados ou, talvez, os mais bêbados, adiantaram-se para o declive. O caminho alargava-se no ponto onde estão aquelas duas grandes pedras que hoje ainda podem ser vistas, e que lá foram postas por gente já esquecida, dos velhos tempos. A lua brilhava na clareira, mas ali no centro estava a infeliz jovem, no ponto onde caíra morta de medo de fadiga. Mas não foi o fato de ver o seu corpo, nem tampouco o corpo de Hugo Baskerville a seu lado, que fez com que se arrepiassem os cabelos daqueles fanfarrões, e sim porque em cima de Hugo, puxando-lhe a garganta, estava urna coisa asquerosa, um animal negro e enorme, que parecia um sabujo e, no entanto, era maior do que qualquer cão de caça já visto. O bicho rasgou a garganta de Hugo, e, quando se virou para os outros, de olhos relu7entes e mandíbulas sangrentas, os três gritaram de medo e partiram desabaladamente, ainda aos berros, pelo campo afora. Um deles, ao que dizem, morreu naquela mesma noite, e os outros dois ficaram com a saúde arruinada até o fim da vida.
“É esta a história, meus filhos, da chegada do cão que dizem ter tão tristemente atormentado a nossa família desde então. Se aqui a relato, é porque as coisas conhecidas são menos apavorantes do que as que são apenas sugeridas ou adivinhadas. Nem se pode negar que muitas pessoas da família tiveram morte infeliz: morte súbita, sangrenta, misteriosa. Apesar disso, possamos nós procurar abrigo na infinita bondade de Deus, que não há de punir eternamente os inocentes, além da terceira ou da quarta geração, conforme está gravado na Sagrada Escritura. A esta Providência, meus filhos, eu vos recomendo; e aconselho-vos, como meio de prudência, a não atravessar a charneca naquelas sombrias horas em que os poderes do mal estão exaltados.
“(De Hugo Baskerville a seus filhos Rodger e John, com a recomendação de nada dizerem à sua irmã Elizabeth.)”
Quando acabou de ler a singular narrativa, o dr. Mortirner levantou os óculos para a testa e fitou Sherlock Holmes. O detetive bocejou e atirou o cigarro no fogo.
— Então? — disse ele.
— Não acha interessante? — perguntou Mortimer.
— Sim, para um colecionador de contos de fadas.
O dr. Mortimer tirou do bolso um recorte de jornal.
— Agora, Sr. Holmes, vou mostrar-lhe algo mais recente. Isto aqui é do Devon County Chronicle de 14 de junho deste ano. Uma breve notícia do que se deduziu da morte de Sir Charles Baskerville, ocorrida poucos dias antes dessa data.
Holmes inclinou-se ligeiramente para a frente, com expressão de interesse. O nosso visitante ajeitou de novo os óculos e começou:
“A morte recente de Sir Charles Baskerville, cujo nome começava a ser mencionado como provável candidato liberal por Mid-Devon, na próxima eleição, causou grande tristeza no condado. Embora tivesse residido em Baskerville por tempo relativamente curto, Sir Charles conquistara o respeito e a amizade de todos, graças à sua amabilidade e grande generosidade. Nestes dias de nouveaux riches, é, agradável encontrar um caso onde o rebento de uma velha família, que sofreu reveses, consegue fazer fortuna e empregá-la a restaurar a grandeza decaída da sua linhagem. Sir Charles, como é sabido, ganhou muito dinheiro em especulações, na África do Sul. Mais avisado do que aqueles que continuam a especular até a sorte se mostrar adversa, ganhou os seus bens e voltou para a Inglaterra. Há somente dois anos fixou residência na Mansão de Baskerville, e todos conhecem os planos de reconstrução e progresso que foram interrompidos por sua morte. Como não tinha filhos, Sir Charles desejava que todo o condado se beneficiasse da sua prosperidade, e muitas pessoas terão razões para chorar a iIi norte prematura. Os generosos donativos por ele feitos a instituições de caridade foram muitas vezes comentados nestas colunas.
“As circunstancias da morte de Sir Charles não foram inteiramente esclarecidas no inquérito, mas, pelo menos, muito se fez para dissipar os boatos espalhados pela superstição local. Não há qualquer motivo para se suspeitar de crime ou acreditar que não se trate de morte natural. Sir Charles era viúvo e, dizem alguns, um tanto excêntrico. Apesar da sua grande fortuna, tinha hábitos simples, e os seus criados em Baskerville não passavam de dois, o casal Barrymore, o marido trabalhando como mordomo e a mulher como governanta. Pelo depoimento do casal, corroborado pelo de vários amigos, sabemos que Sir Charles ultimamente não estava bem de saúde, parecia ter uma lesão cardíaca, revelada pela mudança de cor, falta de ar e crises de depressão nervosa. O dr. James Mortimer, amigo e médico do falecido, prestou depoimento a respeito do assunto.
“Os fatos são simples. Sir Charles Baskerville tinha o hábito de, todas as noites, antes de se deitar, andar pela famosa Alameda de Teixos, em Baskerville HalI. O depoimento dos Barrymores mostra que era esse o seu costume. No dia 4 de junho, Sir Charles manifestara a intenção de ir a Londres no dia seguinte e dera ordem a Barrymore para lhe preparar a mala. Naquela noite saiu, como sempre, para o passeio noturno, e era também seu hábito fumar um cigarro. Não voltou desse passeio. A meia-noite, como visse ainda aberta a porta do saguão, Barrymore alarmou-se e, apanhando uma lanterna, saiu à procura do patrão. Chovera naquele dia, de modo que foi fácil notar suas pegadas. A meio caminho, na alameda, há um portão que dá para a charneca. Há indícios de que Sir Charles parou ali por alguns minutos. Depois, continuou o passeio, e o seu corpo foi encontrado ao fim da alameda. Um fato não foi explicado, isto é, a declaração de Barrymore de que os passos do patrão se alteraram, desde o momento em que passou o portão, parecendo daí por diante ter caminhado na ponta dos pés. Um tal Murphy, cigano, vendedor de cavalos, encontrava-se no campo, não muito longe, mas ele próprio confessou que estava embriagado. Declara ter ouvido gritos, mas não sabe de onde vieram. Não havia sinal de violência no corpo de Sir Charles, e, embora o exame médico indicasse uma incrível distorção facial (tão grande que o dr. Mortimer a princípio se recusou a acreditar que se tratasse do seu amigo e cliente), isso foi explicado como sendo um sintoma não raro em casos de dispnéia e morte por ataque cardíaco. A explicação foi dada após a autópsia, que provou haver uma lesão séria, e a decisão do juiz foi unânime com a opinião do médico-legista.
“Felizmente foi esse o resultado, pois é de suma importância que o herdeiro de Sir Charles se instale em Baskerville e continue a sua boa obra, tão tristemente interrompida. Se a prosaica decisão do juiz não tivesse posto fim aos boatos românticos acerca do caso, difícil seria encontrar morador para Baskerville. Parece que o herdeiro, se estiver vivo, é o sr. Henry Baskerville, filho do irmão mais novo de Sir Charles. Quando se ouviu falar desse rapaz pela última vez, ele estava na América, e estão sendo feitas investigações para descobri-lo e informá-lo de sua boa sorte.”
O dr. Mortimer dobrou o recorte e guardou-o no bolso.
— São esses os fatos conhecidos, Sr. Holmes, em relação à morte de Sir Charles Baskerville.
— Devo agradecer-lhe por ter chamado a minha atenção para um caso que certamente apresenta aspectos interessantes disse Holmes. Li alguns comentários nos jornais, naquela altura, mas estava muito preocupado com o caso dos camafeus do Vaticano, e, no meu desejo de servir o papa, deixei de tomar conhecimento de vários casos interessantes na Inglaterra. Diz o senhor que esse artigo contém todos os fatos conhecidos do público?
— Exatamente.
— Então, conte-me os desconhecidos — disse Holmes, inclinando-se e juntando as pontas dos dedos, assumindo una expressão impassível e judiciosa.
O dr. Mortimer, que começara a dar sinais de intensa emoção, disse:
— Ao fazer isso, vou contar-lhes fatos que não confiei a pessoa alguma. A razão que tive para ocultá-los no inquérito foi a repulsa que sente um cientista em colocar-se publicamente na posição de quem aceita uma superstição. Animava-me também outro motivo, isto é, saber que Baskerville ficaria desabitada, conforme disse o jornal, caso alguma coisa viesse a denegrir mais a sua reputação. Por essas duas razões, achei que tinha o direito de dizer menos do que sabia, já que não haveria nenhuma vantagem prática; mas, com o senhor, não há motivo para não ser absolutamente franco.
“A charneca é pouco habitada, e aqueles que moram perto estão sempre juntos. Por isso, eu via muito Sir Charles Baskerville. Com exceção do Sr. Frankland, de Lafter Hall, e do Sr. Stapleton, o naturalista, não há nenhuma outra pessoa educada numa área de muitos quilômetros. Sir Charles era um homem retraído, mas a sua doença nos aproximou, e um comum interesse pela ciência nos uniu. Ele trouxera muitas informações científicas da África do Sul, e passávamos muitas noites agradáveis, discutindo anatomia comparada do bosquímamo e do hotentote.
“Nos últimos meses, vi claramente que Sir Charles estava num ponto extremo de esgotamento nervoso. Ele levara muito a sério a lenda que acabei de ler-lhe… a tal ponto que, embora passeasse pelas suas terras, nada o induziria a aventurar-se pela charneca à noite. Por incrível que pareça, Sr. Holmes, ele estava convencido de que uma terrível sina pesava sobre a sua família, e não há dúvida de que os casos que me contava nada tinham de animadores. A ideia de uma presença terrível obcecava-o constantemente, e mais de uma vez me perguntou se, numa das minhas visitas profissionais, eu vira alguma criatura estranha, ou ouvira o latir de um cão. Esta última pergunta foi-me feita várias vezes, e sempre numa voz vibrante de excitação.
“Lembro-me muito bem de ter ido uma noite à sua casa, três semanas antes da tragédia. Deu-se o caso de ele estar à porta. Eu descera da carruagem e estava na frente dele, quando vi os seus olhos fixos sobre os meus ombros, olhando para alguma coisa atrás de mim, com expressão de horror. Virei-me de repente e tive apenas tempo de ver algo que me pareceu um grande bezerro preto, que passava no alto da alameda. Tão excitado e alarmado estava Sir Charles, que me vi obrigado a ir até o ponto onde divisara o animal, para procurá-lo. Mas ele desaparecera, e o incidente causou péssima impressão ao meu amigo. Fiquei com ele a noite toda, e foi nessa ocasião que, para explicar a emoção que sentira, ele me confiou o documento que acabei de ler. Menciono este episódio porque assume alguma importância perante a tragédia que se seguiu, mas na ocasião eu estava convencido de que era uma coisa comum e que a excitação de Sir Charles não tinha razão de ser.
“Fora a meu conselho que Sir Charles resolvera ir para Londres. Eu sabia que ele sofria do coração, e a constante ansiedade em que vivia, por simples que fosse a causa, estava lhe afetando seriamente a saúde. Achei que alguns meses de distração na cidade fariam dele um novo homem. O Sr. Stapleton, um amigo comum, que muito se preocupava com a saúde de Sir Charles, era da mesma opinião. No último momento, deu-se a catástrofe.
“Barrymore, o mordomo, que foi quem descobriu a morte do patrão, mandou um dos moços da estrebaria, Perkins, buscar-me a cavalo. Eu ainda não me deitara e por isso cheguei a Baskerville uma hora depois do acontecimento. Verifiquei e corroborei todos os fatos mencionados no inquérito. Segui as pegadas na Alameda de Teixos, vi o lugar perto do portão que dá para a charneca, onde ele parecia ter parado, notei a mudança na forma das pegadas dali por diante, verifiquei que não havia outras pegadas, além das de Barrymore, nu chão macio. Finalmente, examinei com cuidado o corpo, no qual não haviam tocado até a minha chegada. Sir Charles estava de bruços, de braços abertos, com os dedos enfiados no chão, os traços convulsos por uma estranha emoção, a tal ponto que mal o reconheci. Não havia indiscutivelmente nenhum sinal de agressão. Mas uma declaração falsa fui feita por Barrymure, nu inquérito. Disse que não havia sinais nu chão, perto do corpo. Não viu nenhum. Mas eu vi… a pequena distância, frescos e nítidos.
— Pegadas?
— Sim, pegadas.
— De homem ou de mulher?
O dr. Murtimer fitou-nos estranhamente por um momento, e fui quase num murmúrio que respondeu:
— Sr. Holmes, eram as pegadas de um cão enorme!
terça-feira, 16 de setembro de 2014
O Cão dos Baskervilles Capítulo Primeiro
12:40
0 Comentários
Capítulo primeiro: Sherlock Holmes
O Sr. Sherlock Holmes, que geralmente se levantava tarde, a não ser
nas frequentes ocasiões em que ficava acordado toda a noite, estava
agora sentado à mesa do café da manhã. De pé, diante da lareira, peguei a
bengala que o nosso visitante ali deixara, por esquecimento, na noite
anterior. Era uma pesada peça de madeira de boa qualidade, com castão
redondo, daquele tipo conhecido por Penang Iawyer. Logo abaixo do
castão, via-se uma tira de metal, de dois centímetros de largura. Ali
estava gravado: “A James Mortimer, M.R.C.S., dos seus amigos do C.C.H.”.
Em seguida, a data: 1884. Era o tipo de bengala que costumavam usar os
velhos médicos de família: distinta, sólida e tranquilizadora.— Então, Watson, o que me diz?
Holmes estava sentado de costas para mim, e eu não dera a entender qual o assunto em que pensava.
— Como é que soube o que eu estava fazendo? —perguntei. — Creio que você tem olhos na nuca.
— Tenho, pelo menos, um bule de prata muito bem polido à minha frente — replicou ele. — Mas diga-me, Watson, o que pensa da bengala do nosso visitante? já que tivemos a infelicidade de não o encontrar e não fazemos a mínima ideia do que o trouxe aqui, este objeto adquire importância. Gostaria que você me descrevesse o homem através do exame da bengala.
Fazendo o possível para seguir os métodos do meu companheiro, comecei:
— Creio que o dr. Mortimer é um médico idoso, bem-sucedido e estimado, uma vez que aqueles que o conhecem lhe deram esta prova de estima.
— Muito bem! — exclamou Holmes. — Excelente!
— Creio também que tudo indica tratar-se de um médico do interior, que faz grande número de visitas a pé.
— Por que diz isso?
— Porque esta bengala, que deve ter sido muito bonita, está tão usada que não me parece poder pertencer a um médico da cidade. A grossa ponta de ferro está gasta, de modo que ele deve ter caminhado muito com ela.
— Perfeito! disse Holmes.
— Além disso, aqui está “amigos do C.C.H.”. Calculo que seja qualquer coisa relativa a um clube de caça, por ele ter prestado serviços médicos aos sócios, que lhe deram este presente em retribuição.
— Francamente, Watson, você está superando a si próprio — observou Holmes, afastando a cadeira e acendendo um cigarro. — Sou obrigado a dizer que, em todas as descrições dos meus dotes que você teve a gentileza de fazer, em geral foi excessivamente modesto a seu respeito. Pode ser que não seja luminoso, mas é um condutor de luz. Há pessoas que. sem possuírem gênio, têm o extraordinário poder de estimulá-lo. Confesso, caro amigo, que sou seu devedor.
Holmes nunca falara tanto, e devo dizer que as suas palavras me causaram um intenso prazer, pois eu ficara muitas vezes melindrado com a sua indiferença pela minha admiração e pelas tentativas que tenho feito para tornar públicos os seus métodos. Senti-me, também, orgulhoso por ver que assimilara a tal ponto o seu sistema, que conseguira aplicá-lo de maneira a merecer a sua aprovação. Holmes pegou então na bengala que eu tinha nas mãos e observou-a durante alguns minutos, a olho nu. Depois, com uma expressão de interesse, largou o cigarro, levou a bengala para perto da janela e pôs-se a examiná-la com uma lente.
— Interessante, embora elementar — disse ele, voltando ao seu canto predileto do sofá. — Há, sem dúvida, um ou dois indícios na bengala. Isso nos serve de base para várias deduções.
— Alguma coisa que me escapou? — perguntei. — Espero que não tenha deixado de notar nenhum indício importante.
— Receio, caro Watson, que a maioria das suas conclusões sejam errôneas. Quando observei que você me estimulava, queria dizer, para ser franco, que, ao notar as suas falhas, sentia-me de vez em quando conduzido para a verdade. Não quero dizer que você esteja completamente enganado, neste caso. Não há dúvida de que se trata de um médico do interior. E ele anda muito a pé.
— Então, acertei.
— Até aí, sim.
— Mas é só isso.
— Não, não, caro Watson. Não é só isso, de forma nenhuma. Acho, por exemplo, que é mais provável que um presente para um médico tenha vindo de um hospital do que de um clube de caça, e quando vejo as letras “C. C.” colocadas antes da inicial de hospital, lembro-me imediatamente de “Charing Cross”.
— Talvez tenha razão.
— As probabilidades são a favor desse raciocínio. E, se admitirmos essa hipótese, teremos urna nova base para imaginar o nosso visitante desconhecido,
— Pois bem, supondo que “CCH.” signifique “Charng Cross Hospital’, que novas conclusões podemos tirar?
— Nada lhe ocorre? Conhece os meus métodos. Procure aplicá-los!
— Só me ocorre a conclusão óbvia: o homem clinicou na cidade, antes de se mudar para o interior.
— Creio que podemos ir um pouco mais longe. Estude o caso sob esse aspecto. Que ocasião seria mais provável para um presente desse gênero? Quando se reuniram os amigos para dar uma demonstração de apreço? Provavelmente quando o dr. Mortimer largou o hospital para clinicar por sua conta própria. Será, portanto, presumir muito, dizer que o presente foi dado nessa ocasião?
— De fato parece provável.
— Agora, terá de observar que ele não devia fazer parte do corpo médico do hospital, pois somente uru médico dc destaque, bem estabelecido em Londres, poderia ocupar tal posição, e, nesse caso, não iria clinicar no interior, O que seria ele então? Se estava no hospital e não fazia parte do corpo médico, não devia ter passado de médico interno… pouco mais que um estudante. E saiu de lá há cinco anos… veja a data na bengala. Sendo assim, o seu médico idoso, grave, dissolve se no ar, caro Watson, e surge um rapaz de menos de trinta anos, amável, pouco ambicioso, distraído e dono de um cão favorito, animal que descrevo como maior do que um fox-terrier e menor do que um cão de guarda.
Eu ri, incrédulo, enquanto Sherlock Holmes se reclinava no sofá, atirando baforadas para o teto.
— Quanto à última parte, não tenho meios de verificar — repliquei. —- Em todo caso, não é difícil descobrir alguma coisa sobre a idade do homem e a sua carreira profissional
Tirei da estante o Anuário Médico e virei-lhe as páginas. Havia vários Mortimers, mas somente um que poderia ser o nosso homem. Li em voz alta:
“Mortimer, James, M.R.C.S., 1882, Grimpen, Dartmoor, Devon. Médico interno do Charing Cross Hospital de 1882 a 1884. Vencedor do prêmio Jackson de patologia comparada, com um ensaio intitulado ‘Serão atávicas as moléstias?’ Membro correspondente da Sociedade Sueca de Patologia. Autor de ‘Algumas aberrações do atavismo’ (Lancet, 1882) e de ‘Progrediremos?’ (Journal of Psychology, março de 1883). Médico sanitarista das paróquias de Grimpen, Thorsley e High Barrow.”
— Nenhuma palavra sobre o tal clube de caça, Watson — disse Holmes, com um sorriso malicioso. — Mas é médico do interior, como você tão judiciosamente observou. Parece que as minhas deduções estavam certas. Quanto aos adjetivos, creio ter dito amável, pouco ambicioso e distraído. Sei, por experiência, que só um homem amável recebe homenagens, somente um homem sem ambições abandona uma carreira em Londres pelo interior, e só um homem distraído deixa a bengala, e não o cartão de visita, depois de esperar uma hora pelo dono da casa.
— E quanto ao cão?
— Tem o hábito de ir atrás do dono, levando esta bengala. Como é pesada, o cão carrega-a com firmeza, e as marcas dos dentes são bem visíveis. A mandíbula do cão, como se pode ver pelo espaço entre as marcas, é, na minha opinião, larga demais para um terrier e não o suficiente para um mastim. Deve ser… sim, por Deus, é um sabujo de pêlo crespo.
Holmes erguera-se e passeava pela sala, enquanto falava. Parou então diante da janela. Havia tal convicção na sua voz, que ergui os olhos, surpreso.
— Caro amigo, como pode ter tanta certeza?
— Pelo simples fato de ver o cão à nossa porta… e ouça o toque de campainha do dono. Não se mova, por favor, Watson. Vamos receber um colega seu, e a sua presença poderá me ser útil. Eis o momento dramático do destino, Watson, quando se ouve na escada um passo que vai entrar na nossa vida e não sabemos se é para o bem ou para o mal. Que desejará o dr. Mortimer, homem de ciência, de Sherlock Holmes, especialista em crimes? Entre!
A aparência do nosso visitante causou-me surpresa, visto que eu esperava um típico médico de província. Era um homem muito alto, magro, de nariz adunco que sobressaía entre dois olhos cinzentos, vivos e muito juntos, que brilhavam por trás de uns óculos de aros de ouro. Estava vestido formalmente, mas com certo desmazelo, pois tinha o casaco sujo e as calças puídas. Embora jovem, tinha as costas curvas e andava com a cabeça para a frente, com ar de quem olha com benevolência. Quando entrou, seus olhos caíram sobre a bengala que Holmes segurava. Aproximou-se rapidamente, com uma exclamação de alegria.
— Estou muito satisfeito disse ele. Não tinha certeza se a deixara aqui ou na Companhia de Navegação. Não queria perder essa bengala, por nada deste mundo.
— Um presente, pelo que vejo? — disse Holmes. Sim, senhor.
— Do Charing Cross Hospital?
— De uns amigos de lá, por ocasião do meu casamento.
— Ora, ora, isso é que é mau! — disse Holmes, sacudindo a cabeça.
O dr. Mortimer piscou por trás dos óculos, ligeiramente admirado.
— Mau? Por quê?
— Só porque desmentiu as nossas deduçõezinhas. O seu casamento, foi o que disse?
— Sim, senhor. Casei-me e, portanto, deixei o hospital, com esperança de clinicar. Era necessário ter um lar meu.
— Muito bem, muito bem, não erramos tanto assim, afinal de contas — disse Holmes. — E agora, dr. James Mortimer.
— Sr. Mortimer, senhor apenas… um humilde M.R.C.S.
— É um homem de precisão, indiscutivelmente.
— Um curioso da ciência, Sr. Holmes, que apanha conchas nas praias do grande oceano do desconhecido. Creio é ao Sr. Holmes que me dirijo e não a…
— Não; este aqui é o meu amigo, dr. Watson.
— Muito prazer em conhecê-lo. Já ouvi o seu nome, ligado ao do seu amigo. O senhor me interessa muito, Sr. Holmes. Eu não esperava um crânio tão dolicocéfalo, nem um desenvolvimento supra-orbitário tão grande. O senhor se oporia a que eu passasse o dedo na sua fissura parietal? tu molde do seu crânio, até que se possa obter o original, seria um ornamento no meu museu antropológico. Não quero ser desagradável, mas confesso que cobiço o seu crânio.
Sherlock Holmes indicou uma cadeira ao visitante.
— Vejo que é um entusiasta no seu ramo, como eu no meu — disse ele. — Noto pelo seu dedo indicador que prepara os seus próprios cigarros. Não faça cerimônia em acender um deles.
O homem tirou do bolso papel e tabaco e enrolou um cigarro com surpreendente destreza. Tinha dedos longos e vibrantes, ágeis e irrequietos como as antenas de um inseto.
Holmes estava calado, mas os seus olhos dardejantes indicavam o interesse que sentia pelo nosso estranho companheiro. Finalmente, disse:
— Espero que não tenha sido pelo prazer de examinar meu crânio que o senhor me deu a honra de me procurar ontem à noite e hoje novamente.
— Não, claro que não, embora me sinta feliz por ter tido essa oportunidade. Vim procurá-lo, Sr. Holmes, porque reconheço que sou um homem pouco prático e porque me vejo de repente diante de um problema sério e extraordinário. Reconhecendo, como reconheço, que o senhor é o segundo perito da Europa…
— Realmente?! Posso indagar quem tem a honra de ser o primeiro? — perguntou Holmes, com certa aspereza.
— Para o homem de raciocínio puramente científico, o trabalho de M. Bertillon tem grande atração.
— Não seria então melhor o senhor consultá-lo?
— Eu disse: para o raciocínio puramente científico. Mas, como homem de senso prático, o senhor é reconhecida- mente o primeiro. Espero não ter, inadvertidamente…
— Um pouco apenas — respondeu Holmes. — Creio, Sr. Mortimer, que seria mais sensato se, sem mais delongas, tivesse a gentileza de me explicar a natureza exata do problema para o qual pede o meu auxílio.
Assinar:
Comentários (Atom)






